20.6.14

Att

Helena é um processo
reveza entre o meio e o suspenso
cala se não pode ser
e desde fevereiro
não ouvimos mais de Helena

tememos que ela tenha se aproximado
do precipício viciado
que atira sua vítima
apenas com a ideia sobre a queda.
nada de espiral.
não há retórica que salve
a simplicidade da atração
puxando, simplesmente, para baixo
em velocidade constante,
um peso, que calha de ser uma moça,
ao chão.

pretendo também ser fácil
quando registro a mensagem.
"estamos preocupados" são as intenções
assim Helena não imagina

não gostaríamos de estimular imagens super realistas.

"responda o mais breve possível"
senão mandaremos alguém arrombar
(isso não vale mencionar)

"bjs"
abreviado
"e um abraço"
porque, no singular, soa mais duradouro

há dias com seu peso pressionado contra o meu corpo.

31.5.14

Caucasiano

o alemão me faz sorrir, o albino tem os dentes mais brancos que já vi
o alemão se queixa, o albino é uma gueixa
o alemão me abraça, o albino tem nome na praça
o alemão cede, o albino pede
o alemão, procurando meus olhos, me faz chorar. quanta beleza refletida. quase não me acredito. despersonalizo a cada gemido.
o albino, cauteloso, retira as mãos para me tocar. ameaça beijar.
com o alemão eu converso,
o albino pratica um dialeto.
para Berlim e além! evitaremos a Tanzânia.
o albino alcooliza enquanto o alemão trabalha,
esse solta fumaça.
os dois paus rijos
penetram e se tocam
eu assisto a um
despojar na garganta do outro
possibilidades
e meu nome sussurrado
em uníssono
no escuro.

25.5.14

Verborragia antropofálica

a friend in need is a friend indeed / a friend with weed is better.

uma festinha na lapa, numa casa que não frequento desde que cortei a barba
estive deprimido, seria ferido
pelo tal "você anda sumido" ou "não te reconhecemos mais"
se não conhecesse os personagens; continuam todos de barba
e cabelos enormes
gente nova, tropeço, perdão, queimaram uma vela
no centro da sala
"romântico", pensei, que bobo,
maconha
trouxe o isqueiro à toa
(uns são fumo, eu sou fogo)
me passam, eu passo
"hoje não", abafam a risadinha; Boris.
Boris permanece
meio afetado, me toca
que pele
saudade
estimo com cuidado o número de fios de sua barba ruiva:
errei por uma dezena.
perdendo a mão.
a guria da Bahia
me puxando pra dançar
"como faz quando encontra alguém com quem você quer se importar?"
quis dizer, "...com quem você se importa?"
anote aí esse ato falho, sem ensaio, por isso exato. perfeita a tua fala
mas explica
como assim, 'não sei dançar'? é só se mover.
lembra a rotina do despertador
do ônibus
do elevador?
a fila do self service.
é só replicar, com carinho.
pra lá e pra cá, juntinho
os pés para fora da cama – lá
o braço direito sacudindo no ar – cá
o ombro desviando da estagiária.
Boris traz cervejas, três
a menina, incluída, despe os pulsos
vemos feridas
está viva
comovidos, nos despimos também.

Frio.

resfriado.

feriado. aniversário, casamento, ano novo, funeral. a menina permanece,
ou ela cede? uma pausa para o comercial.
café fresquinho, luz invadindo,
cortou o dedo com a faca
da margarina.
becel vira água quando você frita.
eu chupo seu polegar
e tomo gosto
"sou um vampirinho", digo na safadeza
até que ela goze
mas estou menos para Trevisan do que pra Bela Lugosi
perde-se um quilo, ganha-se um quilo
até que se tenha um novo corpo
e, ocasionalmente, o que não for tatuagem
destaca e vira estorvo.

cafeína. ritalina. cocaína.
morar com a família. guarda da filha. transporte de mobília. voltou pra Bahia.

A Fome,
nem um verso sequer
nem desodorante
nem amaciante.
A barba,
lá no pé.

***
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