15.10.14

Mudanças, mudanças

Desde 2008 escrevo neste endereço. A exposição e a troca com outros blogueiros foi fundamental para a minha formação como ser escrevente, mas há tempos o formato do Lecter virou vegetariano não tem sido o suficiente. Hora de mudar!

O conteúdo antigo passará por uma rigorosa (ah, vá) seleção, reduzindo o número de postagens anteriores a 15 de outubro de 2014 a 50.

Estou planejando uma série permanente de trocas, resenhas e entrevistas, a fim de envolver artistas amigos e gente desconhecida. Além de textos, produziremos encontros, jpegs e material audiovisual.

lectervirouvegetariano.blogspot.com é um url muito caro para mim, quase uma casa, uma caverna, um esconderijo. Gostaria de incluir cada vez mais gente nesse espaço; em breve todos serão convidados para a social. ;)

17.9.14

Verão no esquecimento

Mariana é a mais bonita, e sabe disso. Observamos por longos segundos seus dedos médio e indicador levando um trecho de cabelo atrás da orelha. Mariana movimenta o globo ocular para me incluir em seu campo de visão, mas não me encara. Ela quer que continuemos a observá-la anonimamente.

Meu amigo tentando me incluir numa conversa que não me interessa. Convenceu-me a sair de casa, "venha com a gente e não ficarás mais sozinho, atrasado ou doente". Agora, com um copo de cerveja morna, tudo isso me parece bastante profético.

Um gato se esfrega no machucado da minha perna, rejeito o bicho por instinto. Mariana não gosta. Mariana pergunta se eu prefiro cachorro. Digo que um cachorro me atacou, por isso o machucado.

Ela manifesta interesse no acidente (ou na ferida?),

Eu passo os próximos minutos elaborando uma trama que dê conta de toda a desgraça. Estamos exaustos ao final dessa exposição, peço cerveja para nós. Meu amigo, excitado, pisca um olho. Ele se aproxima e toma a cerveja da minha mão, brindando com Mariana. Bebem a cerveja e começam um assunto que não me interessa. Sou forçado a me afastar. Ocasionalmente, vou embora.

31.5.14

Caucasiano

o alemão me faz sorrir, o albino tem os dentes mais brancos que já vi
o alemão se queixa, o albino é uma gueixa
o alemão me abraça, o albino tem nome na praça
o alemão cede, o albino pede
o alemão, procurando meus olhos, me faz chorar. quanta beleza refletida. quase não me acredito. despersonalizo a cada gemido.
o albino, cauteloso, retira as mãos para me tocar. ameaça beijar.
com o alemão eu converso,
o albino pratica um dialeto.
para Berlim e além! evitaremos a Tanzânia.
o albino alcooliza enquanto o alemão trabalha,
esse solta fumaça.
os dois paus rijos
penetram e se tocam
eu assisto a um
despojar na garganta do outro
possibilidades
e meu nome sussurrado
em uníssono
no escuro.

25.5.14

Verborragia antropofálica

a friend in need is a friend indeed / a friend with weed is better.

uma festinha na lapa, numa casa que não frequento desde que cortei a barba
estive deprimido, seria ferido
pelo tal "você anda sumido" ou "não te reconhecemos mais"
se não conhecesse os personagens; continuam todos de barba
e cabelos enormes
gente nova, tropeço, perdão, queimaram uma vela
no centro da sala
"romântico", pensei, que bobo,
maconha
trouxe o isqueiro à toa
(uns são fumo, eu sou fogo)
me passam, eu passo
"hoje não", abafam a risadinha; Boris.
Boris permanece
meio afetado, me toca
que pele
saudade
estimo com cuidado o número de fios de sua barba ruiva:
errei por uma dezena.
perdendo a mão.
a guria da Bahia
me puxando pra dançar
"existe alguém com que você se importe?"
perfeita a tua fala
mas explica
como assim, 'não sei dançar'? é só se mover.
lembra a rotina do despertador
do ônibus
do elevador?
a fila do self service.
é só replicar, com carinho. pra lá e pra cá, juntinho
os pés para fora da cama – lá
o braço direito sacudindo no ar – cá
o ombro desviando da estagiária.
Boris traz cervejas, três
a menina, incluída, despe os pulsos
vemos feridas
está viva
comovidos, nos despimos também.

Frio.

resfriado.

feriado. aniversário, casamento, ano novo, funeral. a menina permanece,
ou ela cede? uma pausa para o comercial.
café fresquinho, luz invadindo,
cortou o dedo com a faca
da margarina.
becel vira água quando você frita.
eu chupo seu polegar
e tomo gosto
"sou um vampirinho", digo na safadeza
até que ela goze
mas estou menos para Trevisan do que pra Bela Lugosi
perde-se um quilo, ganha-se um quilo
até que se tenha um novo corpo
e, ocasionalmente, o que não for tatuagem
destaca e vira um estorvo.

A Fome,
nem um verso sequer
nem desodorante
nem amaciante.
A barba,
lá no pé.

11.2.14

Quando acabamos

Quando acabamos, eu vesti a bermuda apressadamente. Sem pretender, soei como um alarme. Tropecei lutando, mas era tarde: estava de bermudas e já arrependida.

— você ainda está bêbada?
— não, só com as pernas um pouco bambas. obrigada por isso. e pisca um olho.

Oh, quanto charme. Alguém deveria se casar com você imediatamente e te fazer um filho antes que invista nesse tipo de bobagem a vida adentro. Um bebê ocuparia teu útero com intenções mais nobres. Ou uma dívida.

— sabe, eu nunca estive com uma garota como você...

Mas o desgraçado me disse isso na semana passada, com a mesma cara de vereador prometendo asfalto. Deve ser porque eu cortei o cabelo.

— e eu nunca soube de olhos tão azuis quanto os teus...

E isso era verdade. desde yves klein não se viam azuis tão significativos – olhos azuis que dizem muito mais do que podem ver.

— quero casar com você.

Ainda bem que já estou de bermudas, senão era capaz de me enfiar um filho com esse papo torto.

— quero casar com você, repete e continua. quero construir uma vida com você.

Esse é o novo tipo de cantada na praça: amor eterno. "Ei, gatinha, quer que eu esteja ao teu lado para te apoiar numa crise depressiva? prometo não fazer perguntas." E aí, morena, vamos envelhecer juntos?

—  acabei de sair da faculdade. não estou buscando por relacionamentos tão sérios.

O desgraçado vira o rosto consternado, como uma diva ferida. Esbarra com o nariz no henry miller que enfeita o criado mudo.

— "Trópico de câncer"... é sobre o quê?

O desgraçado acha que as coisas devem ser sempre sobre "coisas".

— as coisas às vezes simplesmente são.

Lembro de um trecho divertido do livro, poderia recitá-lo. Algumas passagens li vinte e uma vezes, pelo menos. Mas não digo, não quero intimidá-lo. Com gosto de vinho na boca, poderíamos ser Paris.

— des choses parfois "sont" simplement.

Acho que é um francês errado, mas com o desgraçado estou a salvo.

— estou cansada.

— pois eu ainda correria uma maratona.

Então, corra. Até semana que vem.