17.9.14

Inverno no esquecimento

Mariana é a mais bonita, e sabe disso. Observamos por longos segundos seus dedos médio e indicador levando um trecho de cabelo atrás da orelha. Mariana movimenta o globo ocular para me incluir em seu campo de visão, mas não me encara. Ela quer que continuemos a observá-la anonimamente.

Meu amigo tentando me incluir numa conversa que não me interessa. Convenceu-me a sair de casa, "venha com a gente e não ficarás mais sozinho, atrasado ou doente". Agora, com um copo de cerveja morna, tudo isso me parece bastante profético.

Um gato se esfrega no machucado da minha perna, rejeito o bicho por instinto. Mariana não gosta. Mariana pergunta se eu prefiro cachorro. Digo que um cachorro me atacou, por isso o machucado.

Ela manifesta interesse no acidente (ou na ferida?),

Eu passo os próximos minutos elaborando uma trama que dê conta de toda a desgraça. Estamos exaustos ao final dessa exposição, peço cerveja para nós. Meu amigo, excitado, pisca um olho. Ele se aproxima e toma a cerveja da minha mão, brindando com Mariana. Bebem a cerveja e começam um assunto que não me interessa. Sou forçado a me afastar. Ocasionalmente, vou embora.

29.7.14

Ultraviolência (2014)

Ultraviolência é um conto publicado de forma independente, ilustrado por Lucas Moratelli.















O conto tem como protagonista um designer que percorre o Rio de Janeiro cumprindo suas demandas de trabalho enquanto busca pela próxima droga, a próxima prosa, o próximo corpo, o próximo conflito, nunca em repouso, nunca satisfeito. Percebi que a narrativa só faria sentido se circulasse pela cidade, mesmo que o intuito do blog seja fazer circular mundialmente informação muitíssimo local, subjetiva.

Minha primeira experiência com produção de zines foi a coletânea de textos e imagens que lancei na Mostra Tradução. Cometi alguns erros e prometi a mim mesma uma segunda edição, mas decidi abandonar o projeto e criar publicações mais curtas, mais econômicas, com menor chance de erro.

Ultraviolência foi fácil de fazer e os 100 exemplares numerados estarão na rua gratuitamente a partir de segunda, dia 4 de agosto. Pretendo criar pontos em Botafogo, Engenho de Dentro, Centro e na UERJ do Maracanã, além do mão a mão entre amigos.

Logo logo sairá a sequência em uma edição ainda mais especial! ;)



















"Ela acredita que é a maior prova de amor que eu coma carne para agradá-la. Que eu use camiseta pólo. Que eu não goze em solidariedade, quando ela estiver cansada demais para fingir um orgasmo. Eu digo isso ao meu fornecedor, ele meneia a cabeça:

– As pessoas são lixo."

sem amor no submundo da internet (2014)

Depois de ter um vídeo retirado do Vimeo por "uso indevido" de música protegida (contra quem?), decidi eu mesma criar o meu som. O resultado dessa primeira experiência foi o EP "sem amor no submundo da internet", que ainda carece de uma reedição mais cuidadosa.



A imagem da arte do álbum é da Vanessa Rocha. O título se refere, também, ao álbum "NO LOVE DEEP WEB" do grupo Death Grips. Todas as músicas foram criadas a partir de aplicativos e materiais disponíveis gratuitamente na web.

Já estou bolando o conceito para o próximo! Quero que seja épico. :)

20.6.14

Att

Helena é um processo
reveza entre o meio e o suspenso
cala se não pode ser
e desde fevereiro
não ouvimos mais de Helena

tememos que ela tenha se aproximado
do precipício viciado
que atira sua vítima
apenas com a ideia sobre a queda.
nada de espiral.
não há retórica que salve
a simplicidade da atração
puxando, simplesmente, para baixo
em velocidade constante,
um peso, que calha de ser uma moça,
ao chão.

pretendo também ser fácil
quando registro a mensagem.
"estamos preocupados" são as intenções
assim Helena não imagina

não gostaríamos de estimular imagens super realistas.

"responda o mais breve possível"
senão mandaremos alguém arrombar
(isso não vale mencionar)

"bjs"
abreviado
"e um abraço"
porque, no singular, soa mais duradouro

há dias com seu peso pressionado contra o meu corpo.

31.5.14

Caucasiano

o alemão me faz sorrir, o albino tem os dentes mais brancos que já vi
o alemão se queixa, o albino é uma gueixa
o alemão me abraça, o albino tem nome na praça
o alemão cede, o albino pede
o alemão, procurando meus olhos, me faz chorar. quanta beleza refletida. quase não me acredito. despersonalizo a cada gemido.
o albino, cauteloso, retira as mãos para me tocar. ameaça beijar.
com o alemão eu converso,
o albino pratica um dialeto.
para Berlim e além! evitaremos a Tanzânia.
o albino alcooliza enquanto o alemão trabalha,
esse solta fumaça.
os dois paus rijos
penetram e se tocam
eu assisto a um
despojar na garganta do outro
possibilidades
e meu nome sussurrado
em uníssono
no escuro.