19.7.15

"Eu tenho andado sem tempo"

Dois artigos para entrega em doze dias, setenta mil caracteres, bibliografia inultrapassável, o ranço do desespero vaza quando abro a porta do quarto, garanto que todos na sala saibam o efeito que essa exigência acadêmica tem sobre meus nervos, gaguejo como se perdesse a aposta, garanto que todos saibam a que ponto da quebra estão meus nervos, estão, assim, amigos, já bastante envergados, eles me convencem, sem esforço, a passar essa noite fora da casa, decidimos por uma festa que cobra pela entrada, a caminho passo pelo atm e saco duas notas de cinquenta, adianto a noite para todos nós vomitando onze horas, uma nota de cinquenta, tenho vinte e dois anos e não posso pretender ser livre, cerca de trinta reais, há essa grande responsabilidade por ser linda, saudável, inteligente, deixo cair moedas no bueiro e procuro o som lá dentro, pensam que vou vomitar de novo, todos entendemos que você deve fazer algo com isso, com a beleza a saúde e a habilidade para resolver problemas, pergunto o nome do vendedor de tequila e peço um desconto, alguns problemas não podem ser resolvidos tão cedo, às duas da manhã, aos vinte e dois anos, esqueço seu nome logo depois de lamber o sal, e por isso estamos reféns deles, novo saque no atm em horário especial, não posso pretender ser livre, então me despeço de "carlos" e vou até a rocinha, algum dinheiro no bolso, ligo para um rapaz com quem tenho conversado, ele já sabe como meus nervos têm reagido ao mestrado, estalo em seu rosto um beijo escroto que me constrange, talvez a posição da boca estivesse errada, mergulho mais fundo os lábios na bochecha do rapaz porque sei o que estou tentando provocar, ele nos traz duas cápsulas de cocaína que cheiramos em sua casa, mesa de vidro cartão de crédito e tudo o mais, transamos, é claro, e volto para minha casa passando pela praia, vejo casais, ao meio-dia não tolero que a minha primeira experiência com o pó não tenha me feito mais lúcida ou miserável, miserável, é evidente, assim, apenas de um jeito totalmente legal, estamos engarrafados bem próximos da orla e pelo vidro eu vejo crianças, ajustando o foco eu vejo meu próprio rosto, nenhum julgamento possível, as duas imagens se confundem e acho que esse moleque que acabou de correr pelo meu nariz é uma metáfora finíssima para aquilo que eu prefiro não lembrar. O horror da página em branco é por tudo aquilo que sei, mas ainda não consigo explicar.

12.3.15

Os Viciosos













A imagem veio a pedido da admirável escritora Ana Corneau, quem eu tive a sorte de conhecer por bons amigos em comum. Ela está tramando um livro de contos relacionados à boca, dentes e tudo o que for dessa ordem. Convidou a galera pra ilustrar! Livre interpretação.

Primeiro eu pensei no Burroughs, "Eu já te falei do cara que ensinou seu cu a falar?". Mas anteontem assisti à aula inaugural do mestrado, três pós-doutores por metro quadrado. Só pude lembrar de The Addiction do Abel Ferrara, a ciência absolve o Mal, vampirizando a academia, ainda mais que meu projeto é sobre corpo e ficção científica. A referência ficou e vazou nesse autorretrato.

Não resisti ao spoiler! Eu mesma ainda não li o texto. Estamos ansiosos, Ana!!

2.3.15

Last Girl on Earth - Parte 1

“A última garota sobre a Terra é também a única a quem não poderíamos confiar a maternidade da geração que salvaria a humanidade, caso esse fosse o plano. Os níveis de antídotos e esterilizantes em seu sangue a mantinham totalmente linda e totalmente tóxica. Dizia-se na urbe que após o coito seria perigoso permanecer dentro por mais de alguns segundos, mesmo com o preservativo. Relações mais próximas com Milda provocariam o enfarte prematuro ou intenções suicidas, o que se manifestasse primeiro. Milda foi construída por um engenheiro de alimentos chinês e por uma legista alemã, do modo como se fazia antes da época do Esvaziamento: pela implantação uterina. O procedimento já havia sido descontinuado em todos os Centros de Saúde e o Estado Maior começava sua campanha de natalidade zero quando William Hurt e Donna Holmes decidiram... ter um bebê.

A gravidez de Drª. Holmes foi muito questionada por seus colegas e legalmente investigada pelos membros do Estado Maior. Dois dos profissionais mais requisitados para os serviços públicos, William e Donna não poderiam ser pais de um animal humano sem comprometer a ética de seu trabalho. 

Há uma peça histórica audiovisual muito anciã chamada ‘Soylent Green’ que descreve o período logo antes do Esvaziamento, onde o excesso de população impedia a nutrição adequada de todo animal humano preso na urbe. Apesar da previsão não ser acurada, essa peça, ‘Soylent Green’, nos permite verificar como a importância do trabalho de gente como William e Donna era compreendida mesmo pelas gerações mais deficientes de animais hunanos.


Por um tempo, o Estado Maior convocou todos os técnicos especializados à sua sede para resolver os problemas com transmissão de energia e aproveitamento de descarte. Eram garantidos aos recém-chegados a proteção contra crises em períodos de revolta pública, água corrente potável e acesso à internet. Em troca, eles deveriam adequar-se à cultura da urbe e tomar doses periódicas dos antídotos que os protegeriam do que havia no ar. A segunda condição era um raro privilégio, mas adequar-se significava aprender outro idioma, escolher outro nome, rir de outras piadas...

Tive a chance de conhecer Donna Holmes em um jantar na mansão do meu primo John, que nunca se incomodou em aprender a ler ou escrever de tão rico que era. Lembro do brilho na pele de Donna enquanto ela nos contava, excitada, sobre a estratégia criada junto com seu marido para aproveitar os corpos descartados mais rapidamente, suavizando a textura sem prejuízo de nenhum nutriente. Isso e a descoberta de uma pequena floresta no sul do globo prometiam uma linha de produtos com sabores nunca antes experimentados pelo paladar humano. Os mamilos de Donna estavam duros com a expectativa da grana. Brindamos, e duas semanas depois ela apareceu grávida.


O programa de Esvaziamento entrou em execução quando o Estado Maior ainda se chamava Estados Unidos. Quantidades significativas de toxinas eram aplicadas em amostras aleatórias de produtos populares. Um grupo radical atribuiu as mortes ao consumo da água e notamos que os reservatórios permaneceram em níveis acima do esperado por severos meses. Achamos a decisão da população de boicotar a água bastante burra, mas legítima.

Um dia, um vírus experimental vazou e acelerou o programa de forma devastadora.

Engenheiros estavam morrendo. As drogas disponíveis não inibiam a ação do vírus e o contágio ignorava a quarentena. Meu primo John estava morrendo. Mulheres, homens, crianças, negros, brancos, amarelos, miseráveis, líderes políticos, todos morriam, indiscriminadamente. A morte nos convenceria da paz, não fosse o ego e o desejo: poder. Na minha infância, os Centros de Ensino passavam material de filosofia antiga universal aos alunos excepcionais, de modo que eu lia sobre budismo tibetano e economia política, com igual interesse.


— Não deveríamos impôr critérios como “cor” ou “idade” para aprovação ao Refúgio. Todos os animais humanos saudáveis deveriam ser bem-vindos.

— Deveriam. Deveriam. Deveriam. Deveriam.


Cinco anos depois, a urbe parecia uma festa no fim. Foi criado um antídoto ao veneno lançado no ar para combater o vírus, mas poucos tinham acesso ou interesse nesse tipo de tratamento. O suicídio era tão comum quanto o próprio vírus. Dos que aplicavam o antídoto, apenas 17,54% sobreviviam, dada a agressividade da droga. Na cerimônia para William Hurt, não vi a pequena Milda ao lado de Donna enquanto caminhava para prestar nossas condolências.


— Estávamos brigando pela menina. Vê, o Estado Maior quer a posse dela, alega que a geramos no período da lei de natalidade zero. Você lembra, certo, como isso é uma inverdade? Eles a querem porque ela é pura e resistente, a última de sua geração. William estava lutando por ela e alteraram as doses de suas vitaminas. Vê? O que farão comigo? Querem chamá-la de Lisa, for fuck’s sake.

— Lisa é um nome bonito.

— Oh, querido, simplesmente pare. Eu e William tivemos nossos nomes escolhidos pela porra de um programa de computador. Não há nada de bonito nisso.


Donna tomou uma super dose de estimulantes quando Milda foi levada de sua casa como propriedade do Estado Maior. A menina teria vivido maior parte de seus anos no Refúgio, saudável e livre de venenos. Aquilo era material quente, um campo riquíssimo para pesquisas médicas que se estenderam por dezessete anos.


Na História que fazemos em nossos diários dentro de gabinetes, o dia em que Milda completou vinte e cinco consta com grifos. 

Nessa data, Milda recebeu o direito à emancipação, deixando de ser propriedade do Estado Maior (agora referido apenas como ‘Estado’). Ela havia sobrevivido a todas as experiências com venenos, esterilizantes, tranquilizantes, estimulantes e outros medicamentos que só puderam ser comercializados graças à sua contribuição forçada à ciência.

Tornou-se um animal humano imune, mas viciado.

No mesmo dia, Milda passou a ser a Última Mulher na Face da Terra.

Julie Singer publicou uma carta sobre sua insatisfação em servir ao Estado Maior e suicidou-se logo depois. Com uma população total de 1195... 1194 animais humanos, Julie havia servido a todos pelo menos duas vezes.


Na terceira vez em que estivemos juntos, Julie pareceu pensativa.

— Ela é brilhante. Quero dizer, literalmente brilhante. Sua pele é translúcida.

— São os venenos.

— Quando me abraçou, achei que eu viraria uma estrela.

— Você a abraçou? Você nunca me abraçou. Gostaria de tentar.

— Eu não poderia.

Vestiu a lingerie e fechou os olhos.

— Tenho saudade.



To be continued...