2.3.15

Last Girl On Earth - Parte 1

“A última garota sobre a Terra é também a única a quem não poderíamos confiar a maternidade da geração que salvaria a humanidade, caso esse fosse o plano. Os níveis de antídotos e esterilizantes em seu sangue a mantinham totalmente linda e totalmente tóxica. Dizia-se na urbe que após o coito seria perigoso permanecer dentro por mais de alguns segundos, mesmo com o preservativo. Relações mais próximas com Milda provocariam o enfarte prematuro ou intenções suicidas, o que se manifestasse primeiro. Milda foi construída por um engenheiro de alimentos chinês e por uma legista alemã, do modo como se fazia antes da época do Esvaziamento: pela implantação uterina. O procedimento já havia sido descontinuado em todos os Centros de Saúde e o Estado Maior começava sua campanha de natalidade zero quando William Hurt e Donna Holmes decidiram... ter um bebê.

A gravidez de Drª. Holmes foi muito questionada por seus colegas e legalmente investigada pelos membros do Estado Maior. Dois dos profissionais mais requisitados para os serviços públicos, William e Donna não poderiam ser pais de um animal humano sem comprometer a ética de seu trabalho. 

Há uma peça histórica audiovisual muito anciã chamada ‘Soylent Green’ que descreve o período logo antes do Esvaziamento, onde o excesso de população impedia a nutrição adequada de todo animal humano preso na urbe. Apesar da previsão não ser acurada, essa peça, ‘Soylent Green’, nos permite compreender a importância do trabalho de gente como William e Donna, que foram capazes de transformar corpos cristãos em deliciosas tiras de proteína sabor bacon.


Por um tempo, o Estado Maior convocou todos os técnicos especializados à sua sede para resolver os problemas com transmissão de energia e aproveitamento de descarte. Eram garantidos aos recém-chegados a proteção contra crises em períodos de revolta pública, água corrente potável e acesso à internet. Em troca, eles deveriam adequar-se à cultura da urbe e tomar doses periódicas dos antídotos que os protegeriam do que havia no ar. A segunda condição era um raro privilégio, mas adequar-se significava aprender outro idioma, escolher outro nome, rir de outras piadas...

Tive a chance de conhecer Donna Holmes em um jantar na mansão do meu primo John, que nunca se incomodou em aprender a ler ou escrever de tão rico que era. Lembro do brilho na pele de Donna enquanto ela nos contava, excitada, sobre a estratégia criada junto com seu marido para aproveitar os corpos descartados mais rapidamente, suavizando a textura sem prejuízo de nenhum nutriente. Isso e a descoberta de uma pequena floresta no sul do globo prometiam uma linha de produtos com sabores nunca antes experimentados pelo paladar humano. Os mamilos de Donna estavam duros com a expectativa da grana. Brindamos, e duas semanas depois ela apareceu grávida.


O programa de Esvaziamento entrou em execução quando o Estado Maior ainda se chamava Estados Unidos. Quantidades significativas de toxinas eram aplicadas em amostras aleatórias de produtos populares. Um grupo radical atribuiu as mortes ao consumo da água e notamos que os reservatórios permaneceram em níveis acima do esperado por severos meses. Achamos a decisão da população de boicotar a água muita burra, mas legítima.

Um dia, um vírus experimental vazou e acelerou o programa de forma devastadora.

Engenheiros estavam morrendo. As drogas disponíveis não inibiam a ação do vírus e o contágio ignorava a quarentena. Meu primo John estava morrendo. Mulheres, homens, crianças, negros, brancos, amarelos, miseráveis, líderes políticos, todos estavam morrendo, indiscriminadamente. A morte nos convenceria da paz, não fosse o ego e o desejo: poder. Na minha infância, os Centros de Ensino passavam material de filosofia antiga universal aos alunos excepcionais, de modo que eu lia sobre budismo tibetano e economia política, com igual interesse.


— Não deveríamos impôr critérios como “cor” ou “idade” para aprovação ao Refúgio. Todos os animais humanos saudáveis deveriam ser bem-vindos.

— Deveriam. Deveriam. Deveriam. Deveriam.


Cinco anos depois, a urbe parecia uma festa no fim. Foi criado um antídoto ao veneno lançado no ar para combater o vírus, mas poucos tinham acesso ou interesse nesse tipo de tratamento. O suicídio era tão comum quanto o próprio vírus. Dos que aplicavam o antídoto, apenas 17,54% sobreviviam, dada a agressividade da droga. Na cerimônia para William Hurt, não vi a pequena Milda ao lado de Donna enquanto caminhava para prestar nossas condolências.


— Estávamos brigando pela menina. Vê, o Estado Maior quer a posse dela, alega que a geramos no período da lei de natalidade zero. Você lembra, certo, como isso é uma inverdade? Eles a querem porque ela é pura e resistente, a última de sua geração. William estava lutando por ela e alteraram as doses de suas vitaminas. Vê? O que farão comigo? Querem chamá-la de Lisa, for fuck’s sake.

— Lisa é um nome bonito.

— Oh, querido, simplesmente pare. Eu e William tivemos nossos nomes escolhidos pela porra de um programa de computador. Não há nada de bonito nisso.


Donna tomou uma super dose de estimulantes quando Milda foi levada de sua casa como propriedade do Estado Maior. A menina teria vivido todos os seus anos no Refúgio, saudável e livre de antídotos. Aquilo era material quente, um campo riquíssimo para pesquisas médicas que se estenderam por quase vinte anos.


Na História que fazemos em nossos diários dentro de gabinetes, o dia em que Milda completou vinte e cinco anos consta com grifos. 

Nessa data, Milda recebeu o direito à emancipação, deixando de ser propriedade do Estado Maior (agora referido apenas como ‘Estado’). Ela havia sobrevivido a todas as experiências com venenos, esterilizantes, tranquilizantes, estimulantes e outros medicamentos que só puderam ser comercializados graças à sua contribuição forçada à ciência.

Tornou-se um animal humano superior. Imune, mas viciado.

No mesmo dia, Milda passou a ser a Última Mulher na Face da Terra.

Julie Singer publicou uma carta sobre sua insatisfação em servir ao Estado Maior e suicidou-se logo depois. Com uma população total de 195... 194 animais humanos, Julie havia servido a todos pelo menos cinco vezes.

Na terceira vez em que estivemos juntos, Julie pareceu pensativa.

— Ela é brilhante. Quero dizer, literalmente brilhante. Sua pele é translúcida.

— São os venenos.

— Quando me abraçou, achei que eu viraria uma estrela.

— Você a abraçou? Você nunca me abraçou. Gostaria de tentar.

— Eu não poderia.

Vestiu a lingerie e fechou os olhos.

— Tenho saudade.



To be continued...

20.2.15

Tranquei uns vídeos no Vimeo

Para inscrevê-los numa mostra. A senha é "cinemanegra". Corre lá.

https://vimeo.com/tainaosr

Observação sobre o comportamento humano: Carnaval

arealme.com













Que tal foi o Carnaval de vocês? O meu foi um grande borrão, mas não pelos motivos esperados.

Como toda boa garota de 22 anos, coloquei algumas cervejas para dentro ao lado de amigos excitados o bastante para beijar qualquer um que oferecesse uma boca para a experiência. Estava tão empenhada em fazer isso funcionar que até segui um bloco. Eu pensava em mim mesma como uma observadora do comportamento humano, assim como as senhoras nas sacadas da Rua Joaquim Silva – o conhecimento adquirido por essas é a soma de todas as bebedeiras de cada um que passou pela noite do Rio de Janeiro, os remixes em último volume simulando um terremoto. Estão para a boêmia como Pauline Kael para o cinema americano.

Aos poucos, latão por latão, fui me tornando um animal desajeitado e divertido, conversa fácil e completa integração. Encostada num muro, eu era parte do mobiliário urbano.

Quem me viu com aquele sorriso bobo, jogando sinuca e terminando duas garrafas de Serramalte, pensaria que eu estava muito satisfeita, mas não, eu não estava.

Toda formação que tive até ali me indicava que era preferível estar em casa assistindo a um filme do que gastar dinheiro numa festa a céu aberto com pessoas chatas e cerveja ruim.

Pela manhã, a caminho de Benfica, recebi um sinal:











Estava muito claro que, para minha segurança, eu deveria permanecer em casa. Nos dias que se seguiram, trabalhei no roteiro que estou escrevendo a quatro mãos com uma produtora, mas já estamos na quarta feira de cinzas e não enviei nenhum texto. Explico porquê.

Logo antes do Carnaval, peguei uma gripe ruim. Febre, inflamação e tudo o mais. Quando apresentei sinais de melhora, a cidade inteira parou de funcionar e deu espaço a esse caos institucionalizado. Aqui em casa recebemos um italiano e uma neozelandesa que vieram especialmente para a ocasião. Já eu me afundei num estado soturno e depressivo, evitando luz natural e interação social.

No primeiro dia, vivi a aventura descrita acima. Encontrei o rato morto. Dormi até cinco da tarde.

Depois, foi uma rotina de cama-computador-cama quebrada apenas pela visita do meu namorado. A nossa fotografia abaixo é um exemplo do meu humor nesses dias.



Eu já tinha aberto três janelas do Word e uma do Celtx, tentando pegar o ritmo da escrita. Trinta minutos de trabalho eram o suficiente para que eu voltasse a dormir, acordando seis horas depois. Choveu um pouco. Chorei um pouco. Houve um incêndio.




Recordo que em algum momento arrisquei um pulo em Copacabana, impressionada pela disposição do meu melhor amigo – ele tem boas histórias para contar. Conhecemos um paulista que detestou o Rio e gostou bastante de mim, talvez porque eu também não goste daqui. Comi tapioca com queijo, apesar de há algumas semanas ter assumido uma dieta vegana. Bebi Skol Beats. Dancei. Precisei de dois dias inteiros para me recuperar.

E só agora, ao final dessa postagem, me dei conta de que estamos na sexta-feira, não na quarta. É como se toda a semana tivesse passado por mim. A vida é inebriante e eu estou de ressaca. Banho frio e café, respondo e-mails com a velocidade de um spam. Escrevo como posso. Um pouco de Ritalina não faria mal.